5. COMPORTAMENTO 27.3.13

1. A PROFESSORA  DOWN
2. CONTRA A MODA DE MATAR ANIMAIS
3. O DRAMA DOS BRASILEIROS PRESOS NA BOLVIA
4. 996 MORTOS

1. A PROFESSORA  DOWN
Dbora Seabra venceu preconceitos, alfabetiza crianas e  um exemplo de como a incluso de pessoas com deficincia  possvel
Mariana Brugger

 VITRIA - Dbora Seabra e seus alunos: ela  a primeira professora Down do Pas
 
Dbora Seabra tem 31 anos e  professora de uma turma de alfabetizao com 28 crianas de 6 e 7 anos na Escola Domstica, instituio de ensino particular, em Natal (RN), onde nasceu. Ela  muito querida pelos alunos e pais. Seria uma situao comum se Dbora no tivesse sndrome de Down. Na guerra pela incluso travada diariamente por familiares e por portadores da sndrome, Dbora  uma vitoriosa. Ela  a primeira professora, formada em nvel mdio, nesta condio no Pas.
 
A professora potiguar  o resultado de uma nova postura no trato de pessoas com Down: incluir e capacitar, em vez de esconder. Cerca de 25 jovens esto no mesmo caminho  entre os que esto na faculdade e os que j se formaram. Outros 50 ingressam em cursos profissionalizantes a cada ano. No Brasil atual, a pessoa que tem Down encontra portas abertas na cultura, nos esportes e em diversos setores, diz Dbora Mascarenhas, psicloga do Movimento Down.  uma grande conquista para ns. Mas nem tudo so flores.

Segundo a atual legislao, pessoas com deficincia podem participar dos sistemas de cotas, tanto para ingressar em universidades quanto para trabalhar. Empresas com mais de 100 empregados so obrigadas a destinar entre 2% e 5% das vagas a funcionrios com esse perfil. Mas a mesma lei determina que quem tem deficincia intelectual e recebe penso perca este direito ao comear a trabalhar.  uma situao de insegurana porque os portadores de sndrome de Down tm a sade mais frgil  metade tem problemas cardacos. O ex-jogador de futebol e atual deputado federal Romrio (PSB-RJ), pai de uma criana com a sndrome, luta para ampliar os direitos de quem tem Down.
 
So atitudes como a da escola potiguar, porm, que do uma colaborao gigantesca na luta contra o preconceito, pois desde cedo as crianas aprendem a conviver com a diversidade. Um aluno, por exemplo, perguntou a Dbora por que ela falava engraado e ela explicou que  um pouco diferente dos demais. A gente conversa muito sobre incluso nas aulas. A sndrome de Down  apenas uma caracterstica minha, nada mais. Sei que minha histria  um exemplo para eles, afirma ela. Segundo a diretora ngela Guerra Fonseca, um pai s descobriu que a professora  Down numa reunio ao conhec-la. Mas no quis tirar o filho da escola porque, para o garoto, ela era apenas mais uma professora. Dbora j faz parte do nosso ambiente e aqui ningum a v como diferente, nem pais nem alunos, afirma ngela. 


2. CONTRA A MODA DE MATAR ANIMAIS
Brasil entra no radar dos protetores dos bichos com protesto na SPFW, enquanto ONU alerta para o perigo de extino da cobra pton, matria-prima de bolsas e sapatos
 Michel Alecrim

 MILITANTE - A atriz Thaila Ayala aderiu ao protesto contra o uso de pele na moda que ocorreu na porta da SPFW
 
Era s para anunciar o que estar na moda no prximo vero, mas acabou sendo, tambm, para protestar contra o que deve ficar fora da moda em todas as estaes: o uso de pele de animais em roupas. Nas imediaes do prdio da Bienal, no Parque do Ibirapuera, onde acontece a So Paulo Fashion Week (SPFW), militantes de ONGs e adeptos do movimento No Fur (Nada de peles, em ingls) pediam o fim da matana em nome da indstria. A atriz Thaila Ayala protestou com o slogan na mo e avisou: No uso pele e sou contra quem usa. A campanha organizada pela ONG Move Institute rotula de monstros os estilistas que adotam materiais extrados de bichos, ou melhor, Fashion Monsters. O principal alvo foi o estilista Fause Haten, que costuma usar peles e penas em seu trabalho. No queremos comprar briga com o setor, que tem sua importncia econmica e gera empregos. Pretendemos mostrar que h alternativas ao uso de peles de animais, defende a ativista Adriana Pierin.

As semanas de moda costumam estar na mira e as celebridades ser o alvo principal desses ativistas no mundo. A apresentao da cantora Beyonc, na recente final do Super Bowl, nos Estados Unidos, causou indignao e ela recebeu uma enxurrada de crticas. A roupa que ela usava costurava peles de seis rpteis, entre eles a pton, um dos destaques dos desfiles de Milo, na Itlia, no ms passado. No auge da moda, o rptil tambm est no limiar da existncia. Um recente relatrio do Centro de Comrcio Internacional (ITC, sigla em ingls do organismo ligado  ONU) diz que o movimento anual de produtos com essa matria-prima chega a US$ 1 bilho, mas que a cobra est ameaada de extino por isso. Os mtodos de retirada da pele do animal so primitivos e cruis. Depois de inchadas com gua ou ar, para aumentar o produto, elas so esfoladas vivas e, ainda em agonia, viram alimento para jacar, outra vtima da indstria fashion.

INDIGNAO - Beyonc, na recente final do Super Bowl, nos EUA: criticada por usar peles de seis animais no figurino
 
A porta-voz da ONG americana de defesa dos animais PETA, Ashley Byrne, diz acreditar na conscincia humana: Quando uma pessoa sabe como a pea  produzida, o horror faz com que ela desista da compra. Muitas marcas j optam por rplicas sintticas. Como essa edio da SPFW foi para apresentar a prxima coleo primavera-vero, couros, peles e penas praticamente no tiveram lugar na passarela. Vale conferir como estar a conscincia ecolgica dos estilistas no evento de outono-inverno.


3. O DRAMA DOS BRASILEIROS PRESOS NA BOLVIA
Esquecidos pelo governo, os torcedores corintianos so torturados na priso em Oruro e sofrem com a chantagem de bolivianos, que querem dinheiro para libert-los
Amauri Segalla, Claudio Dantas Sequeira e Rodrigo Cardoso

 TORTURA - Em uma madrugada, seis brasileiros presos na Bolvia foram retirados de uma espcie de solitria e obrigados a ficar nus no ptio da priso, a uma temperatura prxima de zero grau, por meia hora
 
Na Inglaterra do sculo XVIII, uma forma de tortura assombrava os prisioneiros. Quando nevava ou chovia forte, eles eram obrigados a passar as madrugadas ao relento, distantes uns dos outros para evitar que se aquecessem, e completamente nus. Na Bolvia do sculo XXI, seis brasileiros foram arrancados, durante a noite, de suas celas na Penitenciria de San Pedro, em Oruro, levados ao ptio aberto e forados a tirar a roupa. Ficaram assim durante 30 minutos e a uma temperatura prxima de zero grau. Nos gulags, os campos de confinamento de presos polticos erguidos na Unio Sovitica de meados do sculo passado, os detentos rebeldes eram trancafiados em um quarto escuro, sem janela e banheiro, e ali ficavam vrios dias em meio a fezes e restos de alimentos. Na Bolvia do sculo XXI, alguns brasileiros foram levados para um crcere  o calabouo, como os guardas chamam esse lugar  sem acesso a luz natural e desprovido de vaso sanitrio, e l permaneceram at que algum achasse que o castigo era suficiente.
 
Tudo isso  grave, tudo isso  brbaro, mas a afronta que remete a um passado sombrio  ainda mais repulsiva diante da quase certeza de inocncia dos brasileiros. Eles so os 12 corintianos detidos sob a suspeita de participao na morte de Kevin Beltrn Espada, o adolescente boliviano de 14 anos que foi atingido, h pouco mais de um ms, por um sinalizador quando via uma partida de futebol. Provas inequvocas, porm, revelam que as suspeitas no tm cabimento. A polcia boliviana j possui elementos suficientes para confirmar a ausncia de culpa da maioria dos corintianos presos em Oruro. Se  assim, por que eles continuam detidos? Por que esto sendo torturados? Por que foram abandonados pela diplomacia brasileira? Por que o Brasil virou as costas para eles?

TRAGDIA - Kevin Espada ( esq.), morto ao ser alvejado pelo sinalizador disparado no meio da orcida do Corinthians, e o brasileiro H. A. M., de 17 anos, que confessou o crime
 
A resposta para todas essas perguntas parece convergir para um nico caminho: eles so desprezados porque so torcedores de futebol. Por mais que as torcidas organizadas tenham protagonizado pavorosos atos de violncia nos ltimos anos (e  lamentvel a ineficincia da Justia brasileira, incapaz de levar  cadeia criminosos travestidos de torcedores), no est certo deixar os corintianos  prpria sorte apenas porque eles pertencem a grupos repudiados pela sociedade.  impossvel dizer com certeza se algum dos torcedores presos j se comportou mal diante de fs de times rivais (provavelmente sim), mas isso deveria dizer respeito a outra investigao. No que se refere  morte de Kevin, a maioria dos corintianos j provou ser inocente. Basta observar com ateno as imagens de vdeo gravadas no dia da tragdia. 

No exato momento em que o sinalizador  disparado, alguns torcedores que mais tarde seriam presos pelos bolivianos tocavam tambores animadamente. Como poderiam ter usado as mos para acender o artefato fatal se elas estavam, conforme revelam as gravaes, ocupadas com instrumentos musicais? Outros que tambm foram arrastados para o presdio nem sequer tinham entrado no estdio quando o sinalizador foi disparado, informao que  confirmada pelos prprios policiais bolivianos. E h ainda o depoimento de um garoto de 17 anos que confessou o crime para as autoridades brasileiras (embora a autoria do disparo do sinalizador no tenha sido oficialmente confirmada pela percia boliviana). Isso tudo s refora a arbitrariedade das prises e o absurdo da permanncia dos corintianos no presdio de San Pedro. Por que, ento, a diplomacia do Brasil no os retira daquele inferno? O governo brasileiro tem feito gestes para garantir um tratamento humanitrio aos cidados detidos em Oruro, mas no pode interferir no Judicirio boliviano, diz Antonio Patriota, ministro das Relaes Exteriores.

Embora tenha acionado a embaixada em La Paz, o Itamaraty trata o caso de forma burocrtica. Patriota chegou a telefonar para seu colega boliviano, David Choquehuanca, e comentou superficialmente sobre o caso em encontro recente com o presidente Evo Morales. Nos ltimos dias, o assunto perdeu importncia na agenda do chanceler e ficou restrito ao mbito consular. O que significa isso? Certamente uma m notcia para os corintianos. Apenas profissionais de perfil tcnico, que carecem de respaldo poltico, trabalham para tirar os torcedores da Bolvia. Em outras palavras: sem o peso de autoridades do alto escalo, a chance de os brasileiros se livrarem do crcere diminui consideravelmente. Um diplomata declarou  ISTO que o governo no tem se esforado em defender os torcedores organizados do Corinthians porque teme o desgaste poltico que isso possa acarretar. Ningum quer, nestes tempos pr-eleitorais, associar sua imagem com torcidas que possuem histricos de violncia. O que o governo brasileiro no entendeu  que essa questo no tem nada a ver com futebol. Fossem os torcedores presos so-paulinos, flamenguistas ou palmeirenses, no faria diferena alguma. Se eles so inocentes, como  o caso dos corintianos em Oruro, devem ser libertados imediatamente. Mesmo se fossem culpados, torturas como a praticada nos calabouos bolivianos no so aceitveis.

Talvez as autoridades se sensibilizem ao ouvir o relato dos torcedores. O reprter Rodrigo Cardoso entrevistou, por telefone, seis dos 12 corintianos encarcerados (leia os depoimentos nos quadros desta reportagem). Ele conseguiu a faanha graas a uma aberrao do sistema prisional boliviano. Dentro da cadeia de San Pedro h um orelho. Basta discar o nmero do telefone  e ter a sorte de no ser maltratado pelo boliviano do outro lado da linha  para conversar com os detentos. Isso mesmo. Digamos que fulano tenha praticado um crime. Se voc quiser falar com ele,  s telefonar.  assim que os familiares dos corintianos matam a saudade e colhem notcias do sufoco que os brasileiros esto enfrentando. 

Nas conversas com os corintianos, sentimentos como tristeza, revolta e, principalmente, pnico revelaram-se  reportagem de ISTO. Ou a gente mata um ou a gente morre, diz Danilo Silva de Oliveira, 27 anos. Sua maior preocupao so os presos bolivianos, que carregam facas e punhais sem serem importunados pelos policiais. Os brasileiros so odiados e temem um acesso de fria dos outros presidirios, muitos deles usurios de drogas, que so consumidas ali mesmo, diante de todos. Danilo j foi quatro vezes para o hospital. A bronquite, que desde a infncia no dava sinal de vida, reapareceu na Bolvia. Alm disso, a dor provocada por uma infeco urinria, associada a diarreia, o impede de dormir direito.

Danilo no  o tipo que costuma ser ligado a torcidas organizadas. Ele j trabalhou em empresas como Coca-Cola e Telefnica e hoje d expediente como assistente de logstica e com carteira de trabalho registrada, em uma companhia especializada em transportes. Em sua casa de classe mdia na zona sul de So Paulo, o quarto est recheado de smbolos do Corinthians  o travesseiro, o cobertor, os porta-retratos, tudo lembra seu time de corao. Os pais jamais aprovaram a paixo sem limites pelo Corinthians e tentaram convenc-lo a abrir mo da viagem para a Bolvia, que ele planejou por estar de folga no trabalho. Meu filho  um menino carinhoso, que adora ficar em casa com a namorada e detesta briga, diz Lucimar Silva de Oliveira. Nesse aspecto, ele parece mesmo fugir do esteretipo do monstro que, na viso das pessoas, frequenta as torcidas organizadas. Na certa, h muita gente nesses grupos que s pensa em violncia e faz um mal danado para o futebol. Mas h pessoas que certamente no so assim.

As famlias tm sofrido tanto quanto os torcedores presos.  triste ver a preocupao estampada na cara da cozinheira Joselita Neves, me de Fbio Neves, um dos torcedores que tiveram o azar de ir para o calabouo na Bolvia. O Fbio no me conta tudo, mas sei por outras pessoas que ele est sofrendo muito, diz dona Joselita, afundada no sof amarelo de sua sala. Desde que soube que o filho est preso, ela passou a viver  base de calmantes. Nos ltimos dias, tem enfrentado problemas financeiros. Quem mantm a casa  o prprio Fbio, que ganha entre R$ 300 e R$ 400 por semana para vender frutas em So Paulo. Sem o dinheiro dele, o aluguel de R$ 800 atrasou e o dono do imvel no para de cobrar a fatura. Para piorar, dona Joselita recebeu na quarta-feira 20 a conta do celular: R$ 1,2 mil, resultado de seus telefonemas dirios para a Bolvia. Quem vai arcar com a fatura? Ela no tem a menor ideia. O Corinthians, o governo do Brasil, os polticos, ningum me ligou para saber como uma me desesperada est se sentindo, diz ela. Para a direo corintiana, a situao  complicada. Prestar ajudar significa assumir que eles so parte indissocivel do clube  e, assim, assumir a responsabilidade pelos atos dos torcedores. No fazer nada parece soberba e indiferena.  uma equao que no fecha e o Corinthians no sabe como resolver.

PRISO AUTORITRIA - Alguns dos brasileiros presos na penitenciria, em Oruro ( dir.), dizem que nem sequer haviam entrado no estdio quando o sinalizador foi acionado (centro).  esquerda, manifestao, em So Paulo, pela libertao dos torcedores
 
O abandono dos torcedores corintianos s no tem sido maior pela ao isolada de algumas pessoas. No caso do Corinthians, dois diretores conversam com frequncia com os presidirios na Bolvia. No Brasil, o deputado federal Walter Feldman (PSDB-SP) tem sido uma figura importante para ajudar os torcedores detidos. So-paulino de corao, Feldman, por razes eleitorais ou no, abraou a causa. H duas semanas, aproveitou uma viagem  Bolvia para visitar os corintianos e ficou estarrecido com o que viu. Dentro do presdio, as condies so desumanas e est claro o risco de vida que os brasileiros correm, diz Feldman, que criou um grupo na Comisso de Relaes Exteriores e Defesa Nacional para tratar da libertao dos torcedores corintianos. Segundo ele,  certo que, no dia 4 de abril, uma comitiva de autoridades brasileiras ir  Bolvia para negociar com a Justia local a transferncia dos torcedores para uma priso domiciliar. Em Oruro, os advogados de defesa dos torcedores se preparam para impetrar um pedido de habeas corpus. Essa  a nova esperana que alimenta os brasileiros presos. Quando esteve na Bolvia, Feldman foi alertado sobre o contedo poltico da priso dos corintianos. Seria uma espcie de retaliao ao refgio dado pela embaixada brasileira ao senador Roger Pinto, da oposio. O parlamentar, do partido de direita Convergncia Nacional (CN), responde a mais de 20 processos na Justia boliviana por acusaes que vo de corrupo  chacina de indgenas.

No filme Expresso da Meia-Noite, do cineasta ingls Alan Parker, um americano sofre o diabo em uma priso turca, que aparece como o verdadeiro inferno na terra, dominada por assassinos, traficantes e gente que est disposta a tudo para fazer o mal a outras pessoas.  Os crceres bolivianos no esto muito longe disso. Alm dos maus-tratos aos presos e da prtica abominvel da tortura, os presdios do pas mais pobre da Amrica do Sul so controlados por uma intrincada rede de corrupo. No  exagero dizer que, na maioria dos casos, s sai da cadeia quem paga  caro  por isso. Ou seja: se voc, por um azar qualquer, for preso no continente americano, como os torcedores corintianos, o pior lugar para que isso acontea  a Bolvia. Segundo relatos de diplomatas que acompanham o caso, os prisioneiros estrangeiros so usados, no pas, como instrumento de barganha poltica e, na maioria das vezes, como fonte inesgotvel de recursos. De rus, os corintianos correm o risco de se tornar refns de um sistema judicial corrupto e falido, comenta um diplomata veterano.

A senha foi dada na ltima audincia com a presena dos torcedores corintianos.  sada do tribunal, um diplomata brasileiro foi abordado por um homem boliviano que se identificou como advogado. Ele me disse que poderia soltar os rapazes, diz a fonte de ISTO. Era s uma questo de dinheiro. Esse diplomata afirma que o sistema judicial da Bolvia funciona como um balco de negcios. Para conseguir que um processo avance na Justia,  preciso pagar US$ 100. Se o preso desembolsar US$ 400, d para passar um fim de semana fora da priso. A sentena mais barata sai em torno de US$ 15 mil, valor que seria cobrado para liberar cada um dos torcedores brasileiros. Uma conta rpida revela quanto custaria, de acordo com o assdio desse emissrio boliviano, a soltura dos 12 brasileiros: US$ 180 mil. Tenho certeza de que, se esse valor for pago, os brasileiros voltam para casa rapidinho, afirma o diplomata. O sistema judicial da Bolvia  to corrupto que virou piada. A gente chama isso aqui de unboliviable, diz um funcionrio brasileiro, num trocadilho com a palavra americana unbelievable, que significa inacreditvel. 

Alheios s questes polticas e financeiras, os 12 corintianos esperam que as autoridades brasileiras faam o seu papel, que  o de proteger seus cidados enroscados em questes jurdicas, a despeito da inclinao ideolgica ou do time para o qual torcem. Na quinta-feira 21, a reportagem da ISTO percebeu como a priso de pessoas inocentes  estpida e como ela  capaz de causar estragos. J.V.  um garoto esperto de 4 anos, que no quer ir para a escola porque o pai, o motorista Marco Aurlio Nefeire, faz tempo que no aparece em casa. Marco Aurlio  um dos 12 corintianos presos na Bolvia. Ele est prestes a ter outra criana: sua mulher, Ivone Rodrigues, est grvida de oito meses. J.V. no  bobo. Eu quero ir pra Bolvia, diz o menino. Tenho medo que meu pai nunca mais volte de l. Se ele no voltar, eu vou pra l. 


4. 996 MORTOS
Esse  o nmero de pessoas que perderam a vida por causa das chuvas na regio serrana nos ltimos cinco anos. Ao fornecer luz, gua e asfalto em reas de risco, as autoridades do falsa sensao de segurana
Wilson Aquino

 SITUAO GRAVE - Desmoronamento em Petrpolis onde 18 mil pessoas vivem em rea de risco
 
Jos de Oliveira Rocha, o seu Zezinho, jardineiro de 59 anos, parece um clone invertido de Fabiano, o retirante nordestino do romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Enquanto o personagem fictcio tenta sobreviver  seca, seu Zezinho luta contra o excesso dgua que insiste em inundar as casas nas quais ele mora, na regio serrana do Rio de Janeiro. Em 1988, minha casa era novinha, eu mesmo constru, mas veio um deslizamento de terra e destruiu tudo. Chorei de alegria porque no morri. De l para c, mudei trs vezes para fugir das desgraas, afirmou, desta vez chorando de tristeza por ter perdido sete vizinhos na tragdia. Bastaria aos governantes, de todas as esferas, conversar com o seu Zezinho para entender que a desgraa que acomete Petrpolis, onde ele mora e cujos deslizamentos mataram 33 pessoas na semana passada, no  um episdio deste ano.  de todos. Nos ltimos cinco anos, quase mil pessoas perderam a vida na regio serrana do Rio em deslizamentos causados pela chuva. O enredo  o mesmo, mudam apenas os nomes dos mortos e os dos que sobrevivem para chorar as perdas.
 
Desta vez, o pior aconteceu no bairro Independncia, o mais populoso da cidade imperial, atingida por forte chuva seguida de desabamentos de encosta, na madrugada da segunda-feira 18. Trs dos sete vizinhos mortos so a filha e dois netos do pedreiro Jamil Luminato, 53 anos, outra testemunha do descaso que se repete. Em 1981, ele estampou a capa do Jornal do Brasil carregando um beb morto, no mesmo bairro. Trinta e dois anos depois, Luminato enterrou a filha de 30 anos e dois netos, de 2 e 4 anos, vtimas de deslizamentos, no mesmo lugar. A existncia de moradias em reas de risco  o grande problema a ser enfrentado. E o poder pblico tem muita responsabilidade pela situao atual. Os polticos, de modo geral, acabam estimulando a ocupao irregular, admite, meio constrangido, o presidente da Cmara de Vereadores de Petrpolis, Paulo Igor. Quando se colocam gua, luz e pavimentao em uma rea, passa-se a impresso para o morador de que ele est seguro.

"Mudei trs vezes para fugir das desgraas" Jos de Oliveira Rocha, morador de Petrpolis, que j teve uma casa destruda em um deslizamento de terra
 
Mas ele no est. A ocupao inadequada de encostas e das calhas dos rios detona as grandes tragdias, alerta o professor lson Nascimento, doutor em recursos hdricos pelo Coppe, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Somente Petrpolis tem 18 mil pessoas vivendo em situao de perigo. Tero de ser tomadas medidas mais drsticas para que as pessoas no fiquem nas regies onde no podem ficar, afirmou a presidenta Dilma Rousseff. Para tanto, o poder pblico ter de agir, algo que no vem acontecendo, s vezes por puro desleixo. No ano passado, dos R$ 112,8 milhes do oramento destinados ao programa de reassentamento de pessoas em rea de risco do Estado, apenas R$ 2,2 milhes, ou 1,9%, foram gastos.
 
Levantamento da Universidade Federal de Santa Catarina, encomendado pelo Ministrio da Integrao Nacional, revelou que em dez anos a quantidade de desastres naturais no Estado do Rio cresceu 1.405%, sem que houvesse aumento de ocorrncias da natureza na mesma proporo. E Petrpolis  o municpio que mais sofre: 41,45% dos casos aconteceram l. No   toa que em uma dcada, a cidade decretou cinco vezes estado de calamidade pblica. Por isso, espanta o descaso do poder pblico com a populao. A Prefeitura de Petrpolis, em 2009, simplesmente perdeu os prazos para apresentar o projeto de reassentamento das famlias desabrigadas e deixou, assim, de receber R$ 60 milhes do governo federal. H quatro anos nenhuma casa popular  construda na cidade. Outros municpios serranos passam por situao semelhante. A Prefeitura de Friburgo, devastada pelas chuvas em 2011, promete para maio a entrega de 1.800 casas. Em Terespolis, a informao  de que 1.600 unidades habitacionais comearo a ser construdas em abril.

Em Niteri, cidade vizinha ao Rio, a situao dos desabrigados do Morro do Bumba  desoladora. O desmoronamento fez 47 vtimas fatais e, trs anos depois da tragdia, 400 pessoas que perderam suas casas ainda vivem de forma improvisada em dependncias de um batalho do Exrcito desativado. Dois dos 11 prdios  com 454 apartamentos cada um  que estavam sendo construdos para quem ficou sem moradia tiveram as obras paralisadas devido a rachaduras na estrutura. Com isso, a entrega dos imveis, prevista para junho, foi adiada. Cada prdio custou R$ 2 milhes.
 
Em Petrpolis, agora, na hora de contar os mortos, a administrao atual afirma ter planos para os R$ 106 milhes dos governos estadual e federal que devem entrar nos cofres da prefeitura. Vamos contratar 500 homens para o trabalho de desobstruir as ruas, limpar a cidade e comprar mveis e utenslios para os desabrigados, disse  ISTO o prefeito Rubens Bomtempo, que est em seu terceiro mandato. Vamos fazer tambm uma vistoria nas casas afetadas para disparar o aluguel social. Espera-se que no fiquem esquecidos como os desabrigados do Morro do Bumba.

